Aquele sobre como lidar

Ontem eu acordei mais cedo, não foi programado, apenas acordei e senti vontade de levantar, sair na rua, observar um pouco do cotidiano, naqueles minutos entre minha casa e a padaria. É praticamente do outro lado da rua, rua essa que eu conheço desde a década de 80, rua que mudou muito, mas continua a mesma. Hoje ela está mais segura, mais moderna, adaptada ao trânsito atual, cheia dos mesmos problemas de sempre, muito melhor do que já foi, mas continua exatamente a mesma.

Voltei da padaria pensando sobre o quanto a nossa perspectiva de mundo se alterna de um segundo para o outro, como em um momento estamos envoltos em sonhos e vontade de realizar coisas maiores, viver experiências novas e basta um instante para isso tudo evaporar, nos vemos presos dentro de um quarto escuro, sem a menor capacidade de perceber as possibilidades, em espirais de pensamentos que não nos levam a nada, a não ser dor.

Uma amiga veio me perguntar sobre como lidar com essa dor, aquela dor que eu conheço bem, dor de quando se é trocado, aquela dor que começa no peito, sobe para a cabeça e invade a alma, porque as pessoas acham que o fato de estarmos sorrindo o tempo inteiro, é reflexo do que se passa em nosso interior, é mais fácil olhar para as pessoas e imaginar que nossa dor é maior que a de qualquer outro, então se alguém se demonstra bem, automaticamente assumimos que ela não tem problemas e que os nossos problemas merecem mais atenção e são sim, muito mais dolorosos. Então quando minha amiga me perguntou sobre como lidar com essa dor, sabendo de tudo que já passei, a única coisa que eu poderia dizer a ela era: – Não faço a menor ideia, eu continuo eu mesmo, esperando um dia passar. A última, demorou 2 anos e meio, mas passou!

O que falta pararmos para perceber é que somos como aquela rua que tem em frente ao me prédio, ela se adaptou ao mundo moderno, hoje ela é capaz de nos levar a outros lugares antes impossíveis chegar, ela mudou em tudo exceto pelo fato de não ter mudado quem ela é. Talvez esse seja um dos segredos sobre como lidar com qualquer situação difícil, lembrarmos quem somos e como chegamos até esse momento. Existe uma transformação constante em nós, somos testados o tempo inteiro, porém é importante não nos esquecermos dos nossos valores e do que faz de nós o que somos. Cada um de nós tem seu conjunto de valores e atitudes que nos define, e não importa o que aconteça, nos mantermos fiel a isso mostra nosso caráter, não importa a dor que o mundo nos cause, isso não é nem nunca foi desculpa para culpar alguém por isso, nem muito menos fazer alguém infeliz.

Chega uma época da nossa vida que a gente aprende a dar valor às coisas que nos fazem bem, sem se importar com o que acham com isso. Hoje eu me sinto muito à vontade para não sair em um sábado à noite, trocar uma balada por um jantar com meu irmão. Tirar um domingo a tarde para sentar e escrever ou numa terça à tarde ir ao cinema sozinho, tomar um café e rabiscar umas frases no caderno, no meio da cafeteria. Para nos sentirmos bem, não precisamos de mais ninguém, se isso não basta, é porque existe apego, ego ou algum tipo de dependência.

Isso não quer dizer que eu não tenha meus medos, não quer dizer que eu não tenha desejos ou não sonhe em ter alguém comigo, isso só me mostra que quando alguém quiser estar comigo, ela saberá que eu não preciso mais mostrar para os outros algo que não sou, ela saberá que eu me divirto muito fazendo coisas que muita gente acha entediante, que eu me divirto com o meu trabalho e com o mesmo episódio daquele seriado que eu já vi mais de 10 vezes.

Eu tenho procurado fazer o simples todos os dias, amar. Só isso. Quando eu percebo que isso não está funcionando, respiro fundo e me lembro o porque decidi isso, sempre dá certo. Tenho procurado me sentir incrível o máximo de tempo possível a ponto de quando não me sinto, sentir falta de me sentir assim. Confuso, mas real! Então, quando as perspectivas mudam, crie atalhos para voltar ao que era, perceba o quanto você cresceu, quantos novos caminhos descobriu, quantas pessoas passaram pela sua vida e quantas ainda podem passar. Procure o seu “estado incrível de espírito” e aprenda a voltar para ele sempre que possível.

Ontem eu acordei mais cedo, não foi programado, apenas acordei e senti vontade de levantar, havia uma inquietude grande em mim, haviam coisas que eu não imaginava que precisava colocar pra fora e não sei ao certo se fiz bem em colocar, mas eu sei que enquanto eu e você continuarmos fazendo as coisas com o coração e não com o ego, todos ganham, mesmo que não consigamos ver isso de imediato.

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William Morais
Publicitário, quase cineasta e metido a escritor de SP. Aquariano com ascendente em Gêmeos. Romântico crônico e apaixonado por me apaixonar. Entre um café e um seriado nasce um Devaneio que vem direto correndo pra cá.

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