Aquele sobre as causas impossíveis

O bobo das causas impossíveis. Foi assim que fiquei conhecido por me apaixonar por mulheres inacessíveis. Por um tempo eu achei que meu problema era me apaixonar só pelas mulheres mais lindas que eu conheci, então na minha mente funcionava assim: Eu me apaixono pela mais linda, justamente para nem sofrer com a rejeição, pois eu sei que eu nem vou me atrever a dar em cima dela. Sempre achei que esse fosse o meu mecanismo de defesa. Bem, as coisas não são bem assim.

Com o tempo eu aprendi algumas coisas na vida, como a empatia, e juntando algumas peças do que se ouve por aí, entre um livro e outro, entre uma conversa e outra, você descobre que o mundo está além dos olhos. Ver ou não ver está relacionado ao que se sente, percepção é importante, se conhecer ajuda muito, sentir, essa é a palavra: Sentir! Quando você sente o mundo, muitos dos seus conceitos caem por terra. A maioria das mulheres por quem me apaixonei e não me declarei, hoje são amigas importantíssimas em minha vida. O que antes eu tratava como covardia, hoje, eu trato como sabedoria, eu não me apaixonava, apenas participava de uma bela troca de sentimentos e isso é incrível.

Certa vez eu conheci uma garota, atravessava a cidade a pé para passar alguns minutos com ela tomando um café. Quando eu tocava a campainha, adorava ouvir os passos dela pela escada de madeira da casa onde ela morava, não importava o frio, dentro de casa ela estava de blusinha colada ao corpo, sem manga. Juntos, nós riamos de absolutamente tudo. O sorriso dela era encantador e fazia meu coração acelerar. Café ou vinho. Às vezes passávamos horas conversando, outras vezes eu andava 40 minutos para ficar com ela por 10. Mais 40 para voltar pra casa. Nunca nos beijamos. Eu tinha uma paixão platônica por ela que durou pouco, com o tempo descobri que ela também tinha e durou muito. Quando penso nisso abro um sorriso. Nunca me arrependi por não ter falado nada na época, acho que pelo contrário, muito melhor assim. Naquele momento ela não precisava de uma paixão e eu não tinha condições emocionais de ser o amor de alguém. Estávamos emocionalmente inacessíveis, mas precisávamos da energia um do outro. Foi aí que eu percebi que na maioria das vezes eu não me apaixonava, era empatia.

Poder participar da vida das pessoas de forma marcante é espalhar um pouco de você por aí, é uma troca de energia que te faz mais forte e sábio. Ver e ouvir além do seu corpo, sentindo o que está ao redor, engrandece. Quando você não tem nada a oferecer, seja a oferenda, esteja disposto a ser momento, você é mais e para algumas pessoas, em determinado momento, você é tudo. Aquela garota um dia me disse que por um tempo ela também foi apaixonada por mim e rimos dessas “paixonites” não declaradas, porém, mais do que isso ela me disse que aquele tempo que estivemos tão presentes na vida um do outro foi um período de transição e reconstrução na vida dela, onde ela saiu de uma crise emocional desgastante até voltar a se sentir feliz novamente. Eu sabia disso desde o primeiro momento, não com palavras, não exatamente o que estava acontecendo, mas sabia que ela precisava de companhia. Hoje ela se basta, passou por um ou dois relacionamentos depois de que nos conhecemos e nunca deixou que fossem abusivos, aprendeu a se bastar. Hoje nem as suas blusinhas são tão coladas ao corpo. Ela precisa de espaço para viver.

Já ouvi dizer que as mulheres mais bonitas são as mais carentes, não concordo com a generalização, mas entendo que em um mundo onde as pessoas se importam mais com aparências do que com sentimentos, todos estamos sujeitos a ter por perto pessoas que se importam mais com o que vão contar para os amigos do que com o momento a dois.

O bobo das causas impossíveis, continua o mesmo para alguns, mas para mim, hoje ele é alguém que compreende um pouco do coração humano e entende que tudo aquilo que oferece é o que o momento necessita, nem mais nem menos, apenas trocando energias com o universo.

William Morais
Publicitário, quase cineasta e metido a escritor de SP. Aquariano com ascendente em Gêmeos. Romântico crônico e apaixonado por me apaixonar. Entre um café e um seriado nasce um Devaneio que vem direto correndo pra cá.
Comentários

1 Comment

  • Jéssica Miguel junho 28, 2016 (11:44 pm)

    “uando você não tem nada a oferecer, seja a oferenda, esteja disposto a ser momento, você é mais e para algumas pessoas, em determinado momento, você é tudo. ”

    “hoje ele é alguém que compreende um pouco do coração humano e entende que tudo aquilo que oferece é o que o momento necessita, nem mais nem menos, apenas trocando energias com o universo.”

    Já pode parar de escrever essas coisas que a gente sente e nunca consegue descrever em palavras!!!!