Aquele sobre se sentir perdido

Tem horas que temos tanta certeza de algo, que no fim das contas, percebemos que essa certeza não vale de nada. Aprendi durante a vida que tudo muda o tempo inteiro, estamos nesse processo de crescimento constante e isso inclui principalmente a forma de ver o mundo e ver o outro. Nem sempre conseguimos ver isso rápido e nem sempre esse processo é simples, na maioria das vezes é doloroso passar por isso até entender que quando você está realmente comprometido com sua evolução esse esforço vale a pena.

Já tive fases pela vida onde eu soube muito bem o que eu queria e como queria, e fases onde absolutamente nada fazia sentido, as duas são ótimas, te motivam, a primeira é importante, pois sabendo pra onde ir, fica mais fácil chegar, a segunda também é fácil de lidar, enfim, quando se está no fundo do poço, o único caminho é pra cima. O problema está em não saber, onde toda hora seus sentimentos mudam, o senso de referência se perde e você não consegue entender nem o que sente. Partir dói menos quando você está certo do que quer, e isso serve também para ficar. O que machuca de verdade é o meio do caminho. É você querer ficar, mas o medo sussurrar no seu ouvido o tempo inteiro, o medo de sofrer novamente, um medo que nunca tive, sempre ouvi falar nele, mas sentir na pele é assustador.  É você querer partir e deixar o passado para trás, mas a todo tempo se perguntar se essa é a melhor solução, então o que você faz? Até que encontre coragem para tomar uma decisão, você deixar rolar, e esse deixar rolar mexe com seu psicológico, coloca em xeque cada um de seus movimentos, ele projeta medos que envolvem todas as áreas da vida.

Às vezes na vida experimentamos um pouco daquilo que desejamos para o futuro, mas descobrimos que ainda não é a hora, nem a pessoa pra isso. Por outro lado oferecemos ao outro um pouco do mesmo, aquilo que quase ninguém oferece, isso afeta e cativa de forma profunda, mas no meio dessa troca, existem complicações, diferenças de pensamentos e atitudes, não é só simples como deveria, a gente se machuca e o que resta disso é o que dá forças para continuar tentando, então pode ser que uma briga de egos comece e ninguém quer largar o que já teve, na esperança de que o vaso quebrado seja restaurado e que de alguma forma as rachaduras, mesmo estando lá, não passem apenas de um momento passado e que o futuro dirá se valeu a pena ou não a restauração, o problema de estar perdido é exatamente esse, encontrar coragem para acreditar nesse futuro ou para simplesmente abrir mão dele. É uma sinceridade das mais doloridas assumir pra você que não é capaz de tomar ma decisão, assumir essa fraqueza pode ser bonito, e apesar de ser normal, causa dor.

É, como se fosse tão fácil se fazer ausente, mudar de vida, partir, bola pra frente. Ah, se fosse tão fácil. Mas está longe de ser. Razão e emoção travam batalhas diárias, mas o mais engraçado disso é que nenhuma delas sabe realmente o que quer e quando você não sabe pra onde vai, qualquer caminho é errado e a confusão só cresce em você. Queria ter aquele momento de epifania, ouvindo uma música ou entre a troca de uma uma cor para outra na luz do semáforo, mas o problema dos erros é que nem sempre eles fazem só mal, ai continuamos, sem saber se estamos errando ou acertando. Perdido nessa ambiguidade, adiando decisões só pra viver nesse presente incerto. Isso machuca. Entre as metas para sair do meio do caminho estão, não me cobrar tanto, me preservar e tentar não me machucar, procurar de todas as maneiras não machucar ninguém e acima de tudo, respeitar meus sentimentos, isso acaba sendo o mais importante. Entender minha conexão com o universo, conseguir ver os sinais e interpretá-los, oferecendo a mim e ao outro toda a sinceridade que eu tanto busco.

Venho tentando nesse meio tempo compreender o porque de eu não conseguir aceitar o que me é oferecido, sempre parece distante, sempre parece que não mereço. Não saber dizer se acho que não mereço ou se apenas sinto que isso não é para o meu de hoje, mas sim para o meu eu do passado. São muitas dúvidas e poucas respostas, porque tem pouco de mim no hoje e muito entre passado e futuro. Se fosse tão ruim assim, já teria mudado de vida de repente. Ah, se fosse tão fácil. Isso está longe de querer fazer algum tipo de jogo, é uma confusão, das mais frias e implacáveis, daquelas que nos torna bipolar, e basta um sopro para que o humor mude. É como se uma máquina do tempo te levasse ao passado, te mostrando o quanto você já se sentiu importante, e hoje você não consegue mais se sentir assim, e nessa viagem, você também vê o quanto a outra pessoa é importante e você não se sente capaz de demonstrar isso. Isso dói, aquela dor que quase escorre pelos olhos. Isso machuca o outro. Isso não é bom pra ninguém.

Tem horas que temos tanta certeza de algo, que no fim das contas, percebemos que essa certeza não vale de nada, tem horas que só queremos saber o que fazer, mas até lá, o que não podemos é deixar que as incertezas guiem nossas ações, melhor encontrar as respostas em nós antes que seja tarde demais para reparar danos causados em algum mundo por ai. Queria mesmo que fosse tão fácil.

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William Morais
Publicitário, quase cineasta e metido a escritor de SP. Aquariano com ascendente em Gêmeos. Romântico crônico e apaixonado por me apaixonar. Entre um café e um seriado nasce um Devaneio que vem direto correndo pra cá.

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